
O que é felicidade?
Se deixar seduzir por horas e horas com o reflexo do sol na linda vista do mar azul?
Ter prazer ao correr pela rua sem destino, apenas sentindo o vento no rosto?
Sorrir ao ajudar um desconhecido a atravessar a rua?
Chorar de emoção no nascimento de uma criança?
Observar com atenção os movimentos de um pássaro?
Sentir-se protegida com um abraço extremamente carinhoso?
Excitar-se com belas palavras?
É incrível pensar que qualquer coisa, qualquer pequeno detalhe é um prazer em potencial.
E foi isso que eu descobri anos atrás quando minha única preocupação era aproveitar meu presente. Cecília Meireles já dizia da importância disso em “A arte de ser feliz” e Clarice Lispector confirmava em “Mas há a vida”.
Foi nesse momento de conscientização que me tornei escrava do prazer e almejei ser uma mulher muito mais feliz, plenamente feliz, na tristesa e na alegria. Não parei mais de a procurar, onde ela estivesse.
Procurei, procurei procurei e... não me senti satisfeita pois eu queria ter alegria plena e não momentania. E foram em algumas poucas palavras, há minutos atrás, que achei minha insatisfação. Estava tão preocupada em ser feliz que não me dei conta que isso me tornava extremamente infeliz, lembrei-me também da frase do Guimarães Rosa "Felicidade se acha é em horinhas de descuido" que me encantou completamente quando ouvi pela primeira vez na voz de Bethânia.
"Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim".
A arte de ser feliz - Cecília Meireles
"Mas há a vida
que é para ser intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata".
Mas há vida - Clarice Lispector
Agora eu acho que já encontrei minha reza:
“Não é preciso buscar felicidade, preciso é achar felicidade em tudo”.